Controle de Nematoides nas culturas do café e feijão com Adubação Verde

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Projeto Chega de Nematoide entrevista Andressa Machado

 

Pesquisadora do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) fala de suas experiências em nematologia nas culturas do café e feijão e como a adubação verde pode ajudar na guerra contra os nematoides.

 

Imagem: Acervo Pessoal

Andressa Cristina Zamboni Machado é graduada em Engenharia Agronômica pela USP (Universidade de São Paulo), mesma instituição em que concluiu o Doutorado em Agronomia, com especialização em fitopatologia. Possui pós-doutorado em Nematologia, conferido pelo Instituo Biológico. Tem experiência na área de Fitopatologia, com ênfase em Nematologia, atuando principalmente nos seguintes temas: resistência de plantas a nematoides, Pratylenchus brachyurus, nematoides de galhas, biologia molecular, ecologia e taxonomia de nematoides.

Trabalhou como pesquisadora associada na empresa Monsanto do Brasil, atuando na área de Nematologia aplicada ao melhoramento genético de soja. Atualmente, é pesquisadora na área de Proteção de Plantas, especialidade Nematologia, no Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR) localizado em Londrina/PR. É membro do comitê de iniciação científica (PIBIC) do IAPAR. É professora e coordenadora da área de Produção e Proteção Vegetal do Programa de Pós-Graduação strictu sensu em Agricultura Conservacionista do IAPAR. Atua também como membro do conselho diretor da Sociedade Brasileira de Nematologia.

Convidada da Sementes Piraí para partilhar suas experiências e opiniões sobre adubação verde no combate aos nematoides, Andressa comentou sobre sua carreira, algumas de suas pesquisas e reforçou a importância de boas práticas para a manutenção da agricultura no futuro. Confira na sequência sua entrevista para o Projeto Chega de Nematoide:

Projeto Chega de Nematoide: Gostaríamos que você relatasse, brevemente, por que escolheu a Engenharia Agronômica como carreira e qual foi o caminho percorrido até chegar à especialização em nematologia.

Andressa Machado: Na verdade, a Engenharia Agronômica não era minha primeira opção na época do vestibular, em que tive que escolher uma profissão. Apesar de sempre ter gostado muito de plantas e insetos (desde criança colecionava borboletas e adorava ficar observando as características de outros insetos e de flores), não me interessei a princípio em seguir a carreira agronômica. Fiz o vestibular para Engenharia Agronômica, por motivos de força maior, e acabei me apaixonando de vez pela área e nem pensei mais em mudar. A nematologia chegou à minha vida de maneira completamente acidental quando, ainda no primeiro ano de faculdade, fui procurar estágio no setor de zoologia agrícola e acabei sendo direcionada para o professor Mário Inomoto, cujo laboratório fica no mesmo prédio da zoologia. Com um conhecimento extremamente básico da área, iniciei as atividades e nem imaginava o universo maravilhoso que se abriria para meu futuro profissional. A partir daí, já envolvida com os nematoides, trilhei minha carreira acadêmica concluindo a graduação, seguida do doutorado e pós-doutorado na área e até hoje, como profissional, a nematologia continua sendo uma parte muito importante da minha vida e não consigo me ver fazendo outra coisa.  

PCN: E por que o interesse específico no universo dos nematoides?

AM: Minha primeira resposta seria que eles são adoráveis. É um universo extremamente diversificado e que nos dá oportunidade de trabalhar em diferentes linhas de pesquisa. A todo momento novas frentes de trabalho se abrem e isso torna nossa profissão muito dinâmica. Além dessa visão mais romântica do assunto, é inegável a importância que os nematoides apresentam para a agricultura mundial e é muito gratificante trabalhar em benefício do produtor rural, buscando soluções de manejo mais eficientes e sustentáveis, e contribuindo de alguma forma para uma agricultura melhor.

PCN: Muito se têm dito sobre o perigo real do avanço dos nematoides na agricultura brasileira. Você concorda com a afirmação de que os nematoides, atualmente, são as principais pragas a serem combatidas nas lavouras? Quais os principais desafios da agricultura brasileira em relação aos nematoides?

AM: Sem dúvida os nematoides constituem um perigo real à agricultura brasileira, uma vez que são parasitas de culturas de importância econômica para o país, como a soja, o algodão, o café, o feijão, entre tantas outras. Acredito que um dos principais desafios da agricultura brasileira em relação aos nematoides é a falta de conhecimento, não só por parte dos produtores, mas também de toda a assistência técnica. Por serem organismos microscópicos, que parasitam órgãos subterrâneos da planta, o reconhecimento a campo é dificultado e nem sempre se suspeita de sua presença. Além disso, a conscientização do produtor a respeito do manejo de nematoides é outro desafio. Geralmente, até em função do próprio sistema produtivo, a primeira opção do produtor para o manejo de nematoides é a aplicação de nematicidas químicos, que ainda são bastante tóxicos e onerosos. Entretanto, as próprias empresas já estão trazendo produtos biológicos para o manejo de nematoides, pois já perceberam os benefícios advindos de uma agricultura mais sustentável. Claro que esse tipo de produto requer uma mudança de atitude por parte dos produtores, para que sua eficiência seja adequada. Nessa linha, tem-se ainda a rotação de culturas, que além de trazer inúmeros benefícios ao sistema produtivo como um todo, pode aliar a resistência a nematoides, o que contribui sobremaneira com o manejo desses patógenos. 

A paixão pela nematologia conduz as contribuições da
pesquisadora para a agricultura brasileira
Imagem: Acervo Pessoal.

 

PCN: Quais são as espécies de nematoides mais destrutivas à agricultura brasileira? Quais são as principais sequelas para o solo?

AM: Nas condições brasileiras, as espécies de nematoides mais importantes tanto pelos danos causados, quanto pela sua ampla distribuição nas áreas agrícolas, são os nematoides de galhas (Meloidogyne spp.), o nematoide das lesões radiculares (principalmente Pratylenchus brachyurus) e o nematoide de cisto da soja (Heterodera glycines). Os dois primeiros grupos são parasitas de uma ampla gama de plantas hospedeiras, entre anuais e perenes, que causam perdas de produtividade acentuadas nas culturas em que ocorrem. A principal sequela para o solo advinda da presença desses nematoides reside na quase impossibilidade de eliminação desses organismos, uma vez que conseguem sobreviver no solo mesmo na ausência da cultura principal, geralmente em raízes de plantas daninhas. E pela ampla gama de hospedeiros é muito difícil encontrar uma planta que não seja hospedeira de pelo menos uma dessas espécies. Costumamos dizer que uma vez infestada a área, a única possibilidade é a convivência com o nematoide, já que sua eliminação é quase impossível.

 

PCN: Observando seu currículo, destacamos suas produções científicas voltadas ao controle de nematoides nas lavouras de café e feijão. Como se deram esses estudos?

AM: No estado do Paraná, que é meu foco de trabalho, o café e o feijão representam importantes culturas sociais e econômicas. No caso do feijão, o estado é o principal produtor brasileiro, sendo cultivado tanto em pequenas como em grandes propriedades agrícolas. Além disso, o Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR) possui programas de melhoramento genético bem consolidados para ambas as culturas, gerando cultivares com altos níveis de produtividade e adaptadas para diferentes regiões, o que confere a essas duas culturas um destaque dentro da instituição. O trabalho com o café e com o feijão que realizamos na nematologia, surgiu da grande demanda por parte dos produtores para obtenção de respostas para o manejo de nematoides, que permitissem o convívio com os mesmos e reduzissem as perdas de produtividade. Nosso foco se divide em duas linhas principais: a primeira é nossa atuação junto aos programas de melhoramento, buscando cultivares com níveis mais elevados de resistência a esses patógenos; a segunda, o estudo de ferramentas auxiliares de manejo, como a utilização de nematicidas biológicos ou alternativos e a rotação de culturas com espécies de plantas resistentes aos nematoides.

 

PCN: Quais são os nematoides mais comuns nessas culturas?

AM: Assim como relatado para as demais culturas de importância para a agricultura brasileira, também para o café e o feijão temos os nematoides de galhas como o principal grupo, além dos nematoides das lesões. É importante ressaltar que as espécies de nematoide importantes para a soja também conseguem parasitar o feijão, o que pode ser um fator negativo quando da escolha do feijão para integrar o sistema produtivo da soja. No caso do café, o cuidado tem que ser tomado com a consorciação de plantas cultivadas nas entrelinhas, que podem ser hospedeiras dos nematoides que já estão parasitando o cafeeiro, o que agrava a situação para a cultura principal.

 

PCN: Nós defendemos que a adubação verde (AV) é uma opção viável, tanto econômica quanto sustentavelmente, para o controle dos nematoides. O que você pensa a respeito? Como vê a viabilidade da técnica nas culturas cafeeira e feijoeira?

AM: A adubação verde há algum tempo tem sido foco de minhas pesquisas, pois considero uma alternativa bastante viável para mantermos a sustentabilidade dos sistemas de cultivo brasileiros, na medida em que torna possível a convivência com os nematoides, reduzindo as perdas na cultura principal e criando condições favoráveis ao desenvolvimento de fungos e bactérias benéficos presentes no solo. Além disso, o desenvolvimento da cultura principal é favorecido pela matéria orgânica e pela fixação de nitrogênio que muitas dessas plantas utilizadas para adubação verde fornecem para o solo. Os benefícios são inegáveis.

Na cultura cafeeira, que é perene, a utilização dessas plantas é viabilizada quando as cultivamos na entrelinha da lavoura. Mesmo em condições de adensamento da lavoura cafeeira, existe a possibilidade de utilização de adubos verdes, seja na implantação da lavoura, quando as plantas ainda estão pequenas, seja após um esqueletamento, prática bastante comum entre os cafeicultores, que possibilita a abertura das entrelinhas que poderão receber os adubos verdes sem prejuízo ao seu desenvolvimento. Ademais, existem espécies de plantas com porte mais baixo, que poderiam ser utilizadas nessa situação.

Na cultura do feijão, anual e que geralmente faz parte de sistemas produtivos juntamente com a soja ou o milho, a adoção da adubação verde reveste-se de grande importância, pois os benefícios serão estendidos para todo o sistema. Nesse caso, a escolha de espécies de plantas que possam ser cultivadas em época distinta das culturas principais é importante para manter a viabilidade econômica do sistema. Para cada região produtora do país estão disponíveis informações a respeito das espécies de adubos verdes mais adaptadas às condições de solo e clima, bem como sobre a melhor época de cultivo das mesmas, basta o agricultor procurar a assistência técnica de sua região, para a escolha da melhor espécie para cultivo em sua lavoura.

Andressa Machado em campo, explicando aos produtores a
ocorrência de nematóides na lavoura cafeeira
Imagem: Acervo Pessoal.

 

PCN: O que você destacaria como benefícios – diretos e indiretos – da AV?

AM: Os benefícios diretos seriam o aumento da matéria orgânica, essencial para a produtividade das culturas e para a manutenção das condições favoráveis ao controle biológico natural ou aplicado; a cobertura do solo, evitando erosão e perda de nutrientes; as melhorias nas condições físicas e químicas de maneira geral do solo; a descompactação que muitas espécies podem proporcionar; o próprio manejo do nematoide, quando utilizamos espécies de adubos verdes resistentes. Como benefício indireto principal, a adubação verde promove melhorias em todo sistema produtivo, aumentando a produtividade de maneira sustentável, reduzindo o uso de insumos de maneira geral e, como consequência, aumentando a renda do produtor. Além disso, o não esgotamento do solo e dos recursos naturais da lavoura permitirá a utilização do solo para fins agrícolas por muito mais tempo. 

 

PCN: Por fim, gostaríamos que você deixasse uma mensagem ao agricultor que nos lê, sobre a importância da adubação verde na agricultura, em especial às culturas de café e feijão.

AM: A adubação verde, seja nas culturas do café e feijão, seja nas demais culturas, é uma das principais ferramentas para manejo de nematoides, permitindo a convivência com o patógeno e reduzindo as perdas econômicas. É preciso maior conscientização a respeito do problema e uma mudança de atitude em relação ao manejo de nematoides, uma vez que a erradicação é praticamente impossível e a convivência com o nematoide com perdas mínimas é que deve ser priorizada. A utilização de adubos verdes é uma prática que surtirá efeito a médio e longo prazo, mas os benefícios serão imensos, não só para o manejo de nematoides, mas também para todo o sistema produtivo, com melhorias nas qualidades físicas, químicas e biológicas do solo e redução do uso de insumos. Vale a pena adotar essa ideia.


BÔNUS

Andressa aproveitou a oportunidade para partilhar algumas dicas com os produtores quanto às espécies de adubos verdes mais indicadas para o controle de nematoides nas culturas mencionadas na entrevista, além de outras observações para demais culturas:

 

Crotalária-breviflora

Como adubo verde de verão é bastante recomendado para utilização nas entrelinhas da lavoura cafeeira, em espaçamentos menos adensados, por apresentar porte baixo e pela quantidade de biomassa produzida. Permite, ainda, o tráfego de máquinas e equipamentos para os tratos culturais necessários à lavoura, inclusive a colheita. Sua principal característica é a elevada resistência aos nematoides de maneira geral, entre eles o Meloidogyne incognita e M. paranaensis, os principais nematoides do café no estado do Paraná. Também apresenta resistência aos nematoides Pratylenchus brachyurus e P. coffeae, ambos parasitas da cultura do café. Pela sua resistência aos principais nematoides presentes na agricultura brasileira, a Crotalária-breviflora pode ser utilizada em rotação ou consorciação com várias outras culturas de importância econômica para o país, como o feijão.

 

 

Feijão-guandu anão “IAPAR 43”

Adubo verde caracterizado pela elevada produção de biomassa, que pode ser utilizado tanto para consorciação, nas entrelinhas da lavoura cafeeira já em produção, tanto na instalação da lavoura, servindo de proteção contra o vento e a radiação solar. Além disso, é resistente ao Meloidogyne paranaensis, importante nematoide para a cafeicultura paranaense e ao M. enterolobii, o principal nematoide da cultura da goiaba.

 

 

 

Mucuna-anã

Recomendada para cultivo na entrelinha da lavoura cafeeira por apresentar porte rasteiro, não sendo trepadora. Seu porte permite o tráfego de máquinas e equipamentos dentro da lavoura, facilitando os tratos culturais. Apresenta resistência ao Meloidogyne paranaensis e a M. enterolobii.

 

 

 

 

Aveia branca IPR Afrodite

Em regiões mais frias a aveia pode ser opção interessante, tanto para o produtor de café, quanto para uso em rotação com outras culturas. Além de produzir biomassa em abundância, essa cultivar destaca-se pela alta resistência aos nematoides de galhas, sejam eles Meloidogyne incognita, M.javanica, M. paranaensis e M. enterolobii, o que confere versatilidade de uso em diferentes culturas agrícolas. Além dos benefícios citados serve também como fonte de renda ao agricultor, sendo altamente produtiva.

 

 

 

 

 


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